quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Sobre a forma de cair

Hoje em dia vivemos, apesar da tentação de dizer o contrário, tempos de liberdade como nunca os tivemos antes. Hoje em dia podemos falar livremente, podemos ler o que quisermos e podemos exprimir opiniões sobre tudo, podemos escolher a nossa profissão, os nossos amigos, podemos escolher a música de que gostamos, podemos mudar de canal e escolher entre dezenas ou centenas de outros, podemos rasgar um jornal e desligar o rádio, podemos votar nos nossos políticos, podemos viajar para quase todo o mundo, podemos, com um simples clic, visitar um museu do outro lado do mundo ou ler um jornal estrangeiro, podemos escolher entre uma mesa de fumadores e não-fumadores, podemos escolher com quem viver, podemos mandar calar o vizinho, podemos ser mandados calar pelo vizinho, enfim... podemos muita coisa.
Mas nem sempre foi assim... Há trinta e cinco anos não podíamos fazer muitas destas coisas. Nem sequer podíamos ter um isqueiro sem pedir licença. Há vinte anos não podíamos falar mal da igreja ou cantar uma versão alternativa do hino. Há dois anos uma mulher tinha que ir abortar na clandestinidade. Há apenas 60 anos cometiam-se atrocidades por essa Europa fora, enterravam-se seres humanos em valas comuns aos milhares. Há dez anos fazia-se o mesmo na Bósnia. Há apenas 90 anos estávamos em guerra. Há menos de 40 anos também...
Tudo isto para dizer que estamos num tempo em que aparentemente temos liberdade crescente. Mas a verdade é que equilíbrio é frágil. O que nos separa hoje do tempo em que era aceitável e até recomendável queimar bruxas não é assim tão espesso que possamos dizer: nunca mais.
Construir demora muito tempo, destruir demora uma fracção de segundo.
A liberdade tem sempre de ser acompanhada por uma enorme, diria mesmo uma gigantesca dose de responsabilidade. Há que ensinar aos nossos filhos que a liberdade tem o preço de muitas vidas e que essas vidas estão aos nossos ombros. Não é para sentirmos as costas a vergar mas sim para andarmos erectos com mais orgulho. Orgulho em nós, que cá estamos a tentar construir e ganhar mais liberdade e orgulho em todos os que nos antecederam.
Essa responsabilidade não deve ser nunca esquecida e a liberdade não pode servir de desculpa para relaxar ou para cometer abusos... A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro. E todos deveríamos ocupar o mesmo estado/espaço de liberdade.
Sei que nem todos têm a mesma liberdade, nem todos sentem essa mesma liberdade, e porquê? Por falta de respeito de quem ocupa espaço a mais, de quem entra pelo espaço dos outros, de quem se esquece de prezar a liberdade.
Tudo isto parece um pouco críptico mas onde eu quero chegar é à definição de abuso da liberdade. Não é fácil definir quando começa esse abuso. Quando conseguimos dizer que alguém está a abusar... já está, normalmente, a abusar muito... Mas isso tem um preço. Normalmente o caminho é voltar a restringir liberdades. E isso é andar para trás... e é repressor.
Quando um político comete abusos as pessoas deixam de acreditar nos políticos.
Quando alguém divulga o que não devia no youtube, alguém restringe o acesso à internet.
Quando se lançam boatos e calúnias sobre alguém as pessoas deixam de acreditar nas notícias.
Quando a TV nos dá imbecilidades alguém fica imbecil.
Quando há um mau patrão, há um mau empregado.
Quando alguém não vai votar, alguém não é votado.
Quando um indivíduo desiste de lutar... outros três baixam também os braços.
Quando alguém usa a liberdade para atropelar o outro, alguém propõe acabar com a liberdade.

As grandes épocas de restrição de liberdade foram quase sempre antecedidas por épocas de descrédito nas instituições e por uma grande pobreza. Foi assim com o Estado Novo, foi assim na Alemanha de Hitler, foi assim na Itália, é assim em muitos países. Há sempre um caminho fácil para atingir essa massa crítica de pobreza e descrédito. Difícil é o caminho de volta. Pelo meio há sempre uma época de restrição da liberdade e de sofrimento. Durante essa época há heróis e mártires (heróis com azar) que nos inspiram e impulsionam de novo para revolução, para a liberdade.
Mas, pergunto eu, não seria mais racional e inteligente, caminhar em frente? Não andarmos neste constante voltar atrás? Neste estúpido ciclo sem fim à vista? Será assim tão difícil? Se calhar é esta a nossa condição de humanos: dispostos a coisas grandiosas e com capacidades para tal, mas predispostos ao disparate, dominados pela vaidade e egoísmo.
Acho que, para podermos evoluir decentemente enquanto humanos e enquanto país (voltando aqui à nossa terra), não precisamos de grandes valores religiosos, nem sequer de acreditar em Deus, não precisamos de intermediários.
Basta uma grande dose de respeito pelo outro e... um pouco de inteligência.

Nota: O caso Freeport é só mais um caso em que quem vai pagar é a liberdade de todos nós. Todos se portaram mal: a Justiça não funcionou pois foi tão lenta e teve um sentido de timing tal que já ninguém nela acredita, a imprensa (quase toda) continua na sua acentuada curva de descrédito e a ultrapassar a barreira do crime, os políticos continuam também na sua curva descendente por não saberem dizer basta, o Primeiro Ministro (aqui, apesar de tudo, é a parte fraca) pela vitimização em que se coloca.

Uma brisa que me soprava ao ouvido e fazia comichão

Já desde meados de Dezembro que não escrevo nada neste pasquim... Entretanto passou-se um Natal e um ano Novo - ou melhor, estamos num ano novo. Em Dezembro soprava um brisa forte que nos anunciava tempos de crise. Mas também nos anunciava um tempo de esperança: O Sr. Bush ia à vidinha dele: poços de petróleo, vacas, caça, barris de petróleo, laços e rodeos (agora que penso... parece um resumo dos seus 8 longos anos de presidência). Chegou Janeiro e a crise parece que veio para se instalar. Curiosamente aqueles que têm responsabilidades na crise, que não a souberam prevenir ou prever, que fizeram fraudes gigantescas, que andaram a brincar com o dinheiro que não lhes pertencia... agora fazem previsões sobre a duração da mesma... alguns até descem o rating de Portugal... Mas quem são esse badamecos todos para fazerem/dizerem o que quer que seja? Tirando o Paul Krugman esses senhores não me engravidam (aliás nunca me engravidaram...nem engravidariam, agora que olho para baixo!) e como diria o Diácono remédios: «Ide para casa e juizinho... Mas cuidado com os amores...»
Bom ano!